Delegado de Caarapó é um dos vencedores do Concurso de Crônicas promovido pela Polícia Civil MS

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Na manhã desta quarta-feira (18) foram homenageados, na Delegacia Geral da Polícia Civil (DGPC), os ganhadores do 1º Concurso de Crônicas da Polícia Civil.

O projeto, intitulado “Policial Civil Escritor – Crônicas Sobre a Vida Policial”, foi realizado durante o mês de setembro, mês em que se comemora o Dia do Policial Civil e, todos os textos foram avaliados por uma comissão composta pelo Delegado Geral da Polícia Civil, Delegado Geral Adjunto, Diretores do Departamento de Polícia do Interior (DPI), Diretor do Departamento de Polícia Especializada (DPE), Diretor do Departamento de Inteligência Policial (DIP), Corregedoria Geral da Polícia Civil, Academia de Polícia, Presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de Mato Grosso do Sul (Adepol), Presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso do Sul (Sinpol).

Um dos ganhadores do concurso foi o Delegado de Polícia Civil, Dr Ricardo Meirelles, que escreveu a crônica ‘Esmeralda’. Honrado em ter participado da experiência, o delegado ressaltou a importância do projeto. “Participar do concurso de crônicas foi para mim uma grande responsabilidade, ao falar sobre o dia a dia policial e um pouco da realidade de nossas Delegacias. Esse é de grande relevância, pois busca humanizar nosso trabalho, principalmente frente à sociedade, a qual, por muitas vezes, estigmatiza a atividade policial. Tivemos a oportunidade de contarmos um pouco de nossas tantas histórias e acima de tudo, mostrarmos ao público que nossa única finalidade é servir e proteger a população com excelência na prestação do serviço”, destacou o Titular da Delegacia de Caarapó.

Representando a Associação dos Delegados, estiveram presentes na homenagem o vice-presidente da Adepol/MS, Márcio Rogério Faria Custódio, e o 2º Membro Titular do Conselho Fiscal, Rodrigo Vasconcelos Braga. Ainda na ocasião, foi entregue um brinde ao delegado Meirelles, em nome da presidente da Associação, Regina Márcia Rodrigues.

Foto: Polícia Civil MS

A Adepol/MS parabeniza o Delegado Ricardo Meirelles, e a Delegada Sidnéia Catarina Tobias, que está à frente da Assessoria de Comunicação da Polícia Civil MS (ASSECOM) e foi a responsável pela autoria e organização deste projeto.

Confira, logo abaixo, a crônica escrita pelo Dr Meirelles.

ESMERALDA

Tantos casos acontecem no dia a dia de uma Delegacia de Polícia, tantas pessoas vem e vão e de alguma forma suas histórias, seus anseios, suas aflições, nos marcam de uma maneira que muitas vezes vivemos, mesmo que por alguns momentos, a vida de quem nós servimos e protegemos.

E não é este o lema estampado no brasão de nossa polícia civil do MS e que honramos com nosso profissionalismo, nosso trabalho, a dedicação e o companheirismo, num ritmo de superação de todo o policial.

Em meio a nossa rotina, me lembro de minha saudosa primeira lotação na Delegacia de Itaporã, embargado de técnicas e teorias jurídicas e policiais. Neste clima de pioneirismo na profissão atendi uma senhora já idosa, mas que os anos não apagaram a ternura em seu olhar. E que olhar…olhos verdes tão lindos que me remeteram ao tempo de infância com minha querida avó, cujos olhos tão autênticos lhe deram o nome de Esmeralda, que em homenagem contemplei minha querida filha.

Mas voltemos àquela senhora dos olhos verdes, cabelos brancos que lembravam nuvens de algodão e que ao ser atendida pelos investigadores disse estar sendo perseguida por bandidos. Isso mesmo, bandidos!!! Ao saber do fato me revoltei com aquela situação, fomos ao local, investigamos, demos toda a assistência porém os “malfeitores” não localizamos.

Novamente aquela doce senhora, entre seus oitenta e poucos anos de vida, retornou a Delegacia. Fiquei intrigado com a situação e novamente a levei em minha sala na busca de resolver seu problema, ou talvez o meu próprio dilema de reviver minha infância.

Aos poucos percebi que os “homens” que a ameaçavam, cujos nomes, endereços, com tanta riquezas de detalhes ela me descrevia, estavam arraigados em sua imaginação. Talvez naquele ponto onde o tempo é cruel e não perdoa nem as mentes mais brilhantes, nos transformando, com sorte no fim dos dias, em crianças novamente.

Nessa toada já havia procurado a assistência social do Município, pedi para psicólogos locais a atenderam, assistentes sociais, parentes e amigos, mas nada resolvia nosso dilema. Aquela pobre senhora continuava sendo perseguida e eu já tinha me afeiçoado a ela. E em meio a nossas conversas ela me revelou: “os bandidos colocaram um mendrive em minha cabeça, isso mesmo, “um mendrive”. O que seria isso pensei??

Foi nesta hora que ela me descreveu o que tinham feito, colocaram, não me perguntem como, um mendrive em sua cabeça e este objeto dizia todas aquelas coisas horríveis, desde xingamentos, ameaças de morte, estupro, furtos e roubos que aconteceriam com ela caso eu não fizesse algo.

Foi quando tive a ideia, pedi para um investigador pegar um velho rádio que havíamos apreendido e que estava parcialmente desmontado. Entre os pedaços do rádio e uma velha bateria, disse para aquela senhora que havíamos desenvolvido um aparelho que neutralizava o mendrive em sua cabeça. Informei que a tecnologia da polícia conseguiria destruir aquele aparelho e por fim as vozes dos “bandidos” que tanto a incomodavam.

Fizemos uma cena digna de Oscar, colocamos o aparelho na cabeça daquela senhora e após alguns rituais técnicos que confesso que deixamos a imaginação rolar, terminamos a sessão. Informei para ela após uma consulta no SIGO, que o procedimento tinha sido um sucesso, o aparelho estava desligado e ela não ouviria mais nada. Estava LIVRE dos MALFEITORES.

Muito feliz ela me agradeceu e despediu-se, admito que senti um misto de alegria por ajuda-la mas um quê de tristeza, por não poder desfrutar, ao vivo, das lembranças de minha avó. Alguns dias depois novamente estava aquela idosa na porta da Delegacia, mas desta vez para me agradecer e por mais algumas vezes lembro-me dos investigadores comentarem que a senhora do mendrive havia passado lá, para dizer que estava bem, que a máquina funcionou.

Meses e meses se passaram a vida seguiu seu rumo até que numa tarde de verão recebi uma mensagem da DEPAC/DOURADOS, onde o investigador me alertava sobre uma idosa que estava sendo ameaçada, obrigada a fazer várias coisas, que queriam assalta-la e tudo mais…e que ele – investigador – estava revoltado com a situação pois ela morava em Itaporã e precisava de ajuda.

Nesta hora me veio a lembrança, perguntei a ele como eram os olhos daquela idosa, dos majestosos cachos brancos. Foi então que ele me disse: – são verdes Delegado, como lindas Esmeraldas. Nesta hora, não sei se sorri por nostalgia, ou pela tragicomédia dessa vida, ou será que foi para disfarçar minha vontade de não dividir aquela história, ou por fim aquela senhora com outro “neto” que naquele plantão lhe sorria.

Por: Ricardo Meirelles / Delegado de Policia Civil.

 

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